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MENSAGEM
A HORA DA REFORMA
Manfredo Siegle
Jornal ANotícia - 07/11/2008
Na Idade Média, era a Igreja quem controlava, tanto o mercado religioso, quanto o poder temporal. Na tentação de exercer o domínio nessas dimensões, a Igreja corrompeu-se. As autoridades eclesiásticas e representantes do poder espiritual deixaram de exercer o mandato que lhes era próprio. A Igreja sofreu a experiência da decomposição espiritual. Economicamente, a instituição se via ameaçada por uma degradação incontrolável e, em busca de compensação, a hierarquia eclesial apelou para a venda das indulgências.

Era propícia uma profunda reformulação da vida eclesial. Paralelamente ao contexto que abriu espaço à Reforma eclesial, chegara o tempo do renascimento cultural; as ciências experimentaram novos impulsos; não era a Igreja que, com exclusividade, dispunha de homens cultos. A supremacia da Igreja, tanto no aspecto cultural e político, quanto no potencial religioso, deixou de ser absoluta. O sucesso da Reforma aconteceu em razão da ausência do respaldo teológico na Igreja e da desfiguração dos verdadeiros propósitos do Corpo de Cristo. A Igreja, enquanto chamada por Deus, identificada para ser mensageira de esperança e de transformação da humanidade e das suas estruturas, sinalizou sombras e manchas.

Se indagarmos, nos nossos dias, sobre a contribuição específica da Reforma Luterana, sublinho o pensamento dialético, sendo um dos grandes eixos da Igreja e da teologia da Reforma. Contrapõe-se ao pensamento dualista, caracterizado pelo bem ou mal, que induz ao moralismo, à segregação da sociedade e da comunidade, promovendo juízos. Antes de unir o que deve permanecer unido, separa. O eixo do bem e o eixo do mal se hostilizam e se agridem mutuamente. O preconceito, os juízos, o desrespeito e a violência são frutos diretos de tendências dualistas. A teologia cristã, em especial a teologia luterana, é essencialmente dialética e a sua inspiração provém de Cristo, filho de Deus, o primeiro homem novo!

A família cristã é identificada pela vivência da simultaneidade, dela fazem parte pessoas justas e pecadoras. A bondade e a maldade, expressões da humanidade continuam presentes e determinam os relacionamentos sociais e comunitários. O Deus da cristandade se revela como Senhor soberano do universo, exercendo a sua soberania mediante os instrumentos da lei e do Evangelho. A vida humana acontece sob a Palavra que julga, desafia, compromete; mas é também existência que experimenta o anúncio da companhia amiga de Deus, pois é, cem por cento, amor, graça, bondade.

A experiência humana, sob a lei, vislumbra no horizonte a oferta da força da esperança, visualiza transformação e é fortalecida pela promessa da salvação. O princípio da liberdade, fundamento de vida, é dom sem preço, mas "nem tudo convém", escreveu o apóstolo Paulo. Enfim, liberdade isenta de solidariedade é apenas caricatura da liberdade. Já em seu tempo de vida, Lutero, crítico dos negócios corruptos, escreveu: "O mundo afogou no mar da ganância, como se fosse atingido por um gigantesco dilúvio". A prática da justiça continuará sendo princípio fundamental do modelo, o qual propõe a livre democracia. O incentivo à postura dialética, em tempo de globalização e de mercado superaquecido, serve de alerta para que, no modelo atual de sociedade, o espírito da solidariedade jamais esfrie!


Manfredo Siegle
pastor sinodal do Sínodo Norte-catarinense
da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB)
em Joinville - SC


Fonte:
http://www.an.com.br